Ubuntu Humano

FILOSOFIA UBUNTU

“Ubuntu é uma maneira de estar na vida. É uma palavra que condensa a verdadeira essência do que é ser Humano. A minha humanidade está intrinsecamente ligada à tua e, por isso, eu sou humano porque pertenço, participo e partilho de um sentido de comunidade. Tu e eu somos feitos para a interdependência e para a complementaridade.”

Desmond Tutu

Esta palavra, que encontra expressão em variadas línguas africanas, condensa uma filosofia de vida humanista, transversal e independente de qualquer país, cultura, religião ou afiliação política. Ubuntu significa “Eu sou porque tu és”, ou seja, eu só posso ser pessoa através das outras pessoas.

Ubuntu está intimamente ligado à relação entre as pessoas e à sua interdependência, respondendo ao “Penso, logo existo” com “Relaciono-me, logo existo”. Ser Ubuntu, ao contrário de uma visão positivista de autossuficiência, é acreditar numa humanidade comum e interdependente. O bem-estar e a felicidade individual estão intimamente ligados ao bem-estar e felicidade do outro.

 

“(…) a filosofia Ubuntu tem profundas raízes africanas, mas, (…), estende-se além-fronteiras. Não é sul-africana. Não é portuguesa. A essência do Ubuntu é Ser Humano.”                             

John Volmink

A filosofia Ubuntu trata da essência do ser humano que valoriza a importância do “eu” na sua busca de sentido através do encontro com o outro, numa relação de interdependência construtiva. Assim, a filosofia Ubuntu propõe que cada um aprenda a descobrir-se, a si e ao outro, comunicando-se, relacionando-se, preservando e potenciando a singularidade de cada um.

Com o objetivo de capacitar jovens e educadores para uma ética do cuidado, onde cada um se considere responsável por cuidar de si, dos outros e do planeta, a Academia de Líderes Ubuntu funda as suas raízes na filosofia de vida Ubuntu, que se faz presente em diversas dimensões como a metodologia do projeto, as ferramentas e instrumentos utilizados, na inspiração de novos construtores de pontes e novos líderes servidores.

 

ÉTICA DO CUIDADO

Poucos são os conceitos mais próximos do Ubuntu como o é a Ética do Cuidado.

Vivemos no mundo da imersão digital, da velocidade e do efémero. A vida é, cada vez mais, mediada por máquinas e softwares que, crescentemente mais sofisticados, substituem, por vezes irreversivelmente, o que antes era feito por e com pessoas. Este caminho onde escasseia o rosto e presença humana, tem despertado uma maior necessidade de busca de um sentido e de um propósito para a vida de cada um.

Em Saber Cuidar, Leonard Boff diz-nos que “No cuidado encontra-se o ethos fundamental do homem. Isto significa que no cuidado identificamos os princípios, os valores e as atitudes que fazem da vida algo bom de se viver e das ações, um desafio a aceitar”.

Na essência do “Eu Sou porque Tu És” está o cuidado, a atenção, a proteção, a relação, intrínsecos à essência do ser Humano. Cuidar de mim, cuidar do outro e cuidar do planeta leva ao sentido e ao propósito, tantas vezes enublado ou escondido por uma sociedade que se foi, em tantos aspetos, desumanizando.

Ubuntu restaura este sentido de humanidade, colocando o foco na pessoa e as suas relações, ajudando a conectar-se com o que de mais profundo e humano cada um de nós guarda em si. Não é difícil perceber que a Ética do Cuidado seja um dos fundamentos basilares para este caminho Ubuntu.

 

CONSTRUÇÃO DE PONTES

Num mundo cada vez mais fragmentado e tantas vezes extremado, onde o medo é tantas vezes o motor de decisões com consequências trágicas, urge criar uma cultura de pontes e capacitar um número crescente de construtores de pontes, pessoais, territoriais, geracionais, culturais, civilizacionais, que ajudem no caminho de um mundo mais coeso e solidário, mais digno e mais humano.

A construção de pontes está intimamente ligada ao que de mais profundo a filosofia Ubuntu defende. A capacidade de se reconhecer interdependente é uma das características fundamentais para qualquer construtor de pontes. A certeza da necessidade do outro, de ligar margens nem sempre próximas e de se deixar transformar com essa ligação, é condição essencial para quem se quer transformar em pontífice, ou seja, aquele que constrói pontes.

Pelo que foi dito fica claro que ser construtor de pontes é uma das características essenciais de um líder servidor. No entanto, porque esta é uma tarefa muitas vezes difícil e que envolve empenho e regras, na Academia de Líderes Ubuntu é dada especial atenção a este tema.

 

LIDERANÇA SERVIDORA

“Todos podem ser grandes... porque todos podem servir. Não é necessário um diploma universitário para servir. Não precisa que haja concordância entre substantivo e verbo, para servir. Só é necessário um coração cheio de graça. Uma alma gerada pelo amor."                                                    

Martin Luther King

Inspirada por Martin Luther King, a Academia de Líderes Ubuntu assenta na convicção de que todos podem ser líderes, porque todos, nas comunidades a que pertencem, podem servir.

A Liderança Servidora, focada no bem comum, procura gerar consensos e mobilizar a vontade coletiva, na procura de soluções para problemas concretos. Longe do conceito de liderança centrada num só indivíduo, na verticalidade hierárquica ou na lógica do poder centra-se, ao invés, na capacidade de uma pessoa, em registo relacional, interdependente e colaborativo, potenciar as capacidades dos outros em prol do bem comum. O autoconhecimento, a autoconfiança, a resiliência, a empatia e o serviço, são essenciais no percurso de crescimento de quem deseje ser líder servidor.

 

“O líder servidor, serve primeiro. Tudo começa com um sentimento natural de querer servir. Então, uma escolha consciente leva a pessoa a desejar liderar. Esta pessoa é totalmente diferente de quem lidera primeiro.”            

Robert Greenleaf

O líder servidor é motivado por um desejo enraizado de querer fazer a diferença na vida dos outros e no mundo que o rodeia. É a partir desta premissa que trabalhamos a liderança, assumindo que é um caminho que implica um conjunto de competências que têm de ser desenvolvidas ao longo da vida. Na convicção de que as características de liderança se aprendem e se potenciam, a Academia de Líderes Ubuntu investe na capacitação de pessoas, com o objetivo de que cada um descubra quem é, que capacidades tem, quem quer servir e como quer servir.

Método Ubuntu

 

A palavra “Ubuntu” é uma combinação de dois termos: “Ntu” que significa pessoa e “Ubu” que significa tornar-se. Esta filosofia revela uma centralidade na pessoa na sua singularidade e, simultaneamente, propõe um caminho que cada um é chamado a fazer: tornar-se pessoa. A filosofia Ubuntu torna evidente que a natureza humana tem no seu centro a relação, “ser-com-o-outro”. Acreditando que nos tornamos mais pessoa na relação com o outro.

Este caminho, profundamente relacional, que se inicia no “eu” e se completa no “nós”, inspirou os promotores da Academia de Líderes Ubuntu a propor uma interpretação, possível de ser concretizada num método que possa ajudar cada um a descobrir-se como líder Ubuntu. Assim, o método proposto passa pelo aprofundamento do conhecimento de si e das suas capacidades e forças – os três primeiros passos – seguindo em direção ao outro – os dois últimos passos, numa dinâmica perpétua e circular, onde se volta sempre ao centro de cada um, para poder ir ao encontro do outro de forma renovada e melhorada.

A prática foi confirmando as potencialidades do método que, embora aberto a melhorias e contributos, acreditamos estar suficientemente testado, avaliado e consolidado, podendo ser proposto para replicação.

 

UBUNTU E OS 5 PILARES

O método Ubuntu aposta no desenvolvimento de cinco competências centrais, que trabalham o Autoconhecimento, Autoconfiança e Resiliência, a Empatia e Serviço. As primeiras três dimensões são mais individuais e as duas últimas mais relacionais.

Embora se dê especial enfoque às cinco competências referidas, a Academia de Líderes Ubuntu é um espaço onde se privilegia a aprendizagem e o desenvolvimento integral dos participantes, promovendo outras competências como o trabalho de equipa, o pensamento crítico e autorreflexivo, a comunicação, a resolução de problemas, entre outras.

 

sk l AUTOCONHECIMENTO

“Aquele que não é capaz de se governar a si mesmo, não será capaz de governar os outros.”

Mahatma Gandhi

Mais do que uma autoanálise intelectual, o autoconhecimento implica o reconhecimento interno de dinâmicas psicológicas e afetivas, de paixões e motivações, de medos e sonhos. A experiência da Academia de Líderes Ubuntu diz que o primeiro passo para uma verdadeira transformação de vida envolve uma viagem interior: o conhecimento de si mesmo.

Para ajudar nesta viagem são propostos momentos de reflexão individual, dinâmicas variadas e técnicas de storytelling, procurando facilitar a leitura e integração positiva da história de vida de cada participante, ajudando a ajustar a perceção que cada um tem de si próprio. Promove-se a consciência do eu presente, das transformações e crescimento pessoal, bem como a projeção do eu futuro, identificando estratégias que permitam desenvolver o potencial individual de cada participante. A consciência realista das forças e fragilidades individuais é essencial, pois é aí que assenta qualquer processo de capacitação e liderança.  

 

sc l AUTOCONFIANÇA

 “Tudo parece impossível, até que seja feito”

Nelson Mandela

Uma das consequências positivas do autoconhecimento, conduzido mediante um olhar verdadeiro e humanizador, é o reconhecimento de forças e potencialidades individuais. A autoconfiança é aqui entendida como a convicção das capacidades individuais para atingir ou realizar um determinado objetivo. Com humildade, tomar consciência das características individuais e do seu valor intrínseco, para as colocar ao serviço da comunidade.  Como nos diz John Volmink, autoconfiança fala de foco e de coragem: foco no caminho que se quer trilhar e coragem para, apesar dos obstáculos, das críticas, das dificuldades, trilhá-lo.

A autoconfiança é fortalecida na medida em que, dotado de estratégias, cada um se reconheça capaz de atingir os objetivos e metas a que se propõe, cumprindo o seu desígnio no serviço ao outro. Trabalha-se para que os participantes recusem narrativas de resignação e autovitimização, recordando-lhes que são autores da sua própria história - “Eu sou o senhor do meu destino, eu sou o capitão da minha alma” (William Ernest Henley – Invictus)

 

r l RESILIÊNCIA

“As dificuldades preparam pessoas comuns para destinos extraordinários”

C. S. Lewis

A superação de obstáculos é um desafio universal, diário e inevitável. A resiliência concretiza-se pela capacidade de transformar estas mesmas adversidades em oportunidades de crescimento. As dificuldades, sejam elas grandes ou pequenas, simples ou complexas, desafiam cada um a superar-se, vencer, perseverar e crescer. A capacidade de transformar obstáculos em oportunidades, de não se deixar vencer pelo desânimo ou pelo desespero, ultrapassando-os de forma saudável, construtiva e acompanhada, surge como dimensão central a potenciar durante o processo formativo da Academia.

A resiliência permite olhar para os contratempos com a certeza de que, depois de ultrapassados, fortalecerão a capacidade de lutar pelos objetivos e sonhos que movem cada um. Assim, cada desafio ou dificuldade que se enfrenta com êxito fortalece a vontade, a confiança e a capacidade de vencer as adversidades futuras.

 

e l EMPATIA

"Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele”

Carl Rogers

A empatia sintetiza a capacidade de ver e entender o mundo através do ponto de vista do outro. Implica estar disponível para reconhecer a outra pessoa na sua singularidade, para se colocar no lugar do outro. Cada participante é convidado a desenvolver a competência de se descentrar, tornando-se mais capaz de compreender, escutar o outro, de sentir com o outro numa dinâmica de encontro e construção positiva. Neste sentido, é fundamental promover o encontro, aproximar realidades, desconstruir preconceitos e combater o individualismo.

É através do encontro e da relação que a compreensão, a aceitação e o respeito surgem, mediante as diferentes formas de percecionar, ver e significar a realidade. Assim, pretende-se que cada um possa entender a essência Ubuntu, na medida em que nos tornamos mais humanos quando nos aproximamos e deixamos completar pelo outro. A empatia é “a arte de se colocar no lugar do outro para transformar o mundo” (Krznaric).

 

s l SERVIÇO

“Eu sei que o meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ele o oceano seria menor”

Madre Teresa de Calcutá

O serviço é uma dimensão essencial e engloba uma forma concreta de ser e estar em relação. Ambiciona-se que cada participante Ubuntu, consciente da sua responsabilidade no mundo, possa adquirir as competências humanas e as ferramentas técnicas necessárias, para se tornar um líder servidor ativo na luta por um mundo melhor.

Conhecendo-se a si próprio, confiando nos seus talentos, acreditando na sua capacidade de superar as adversidades e sentindo com o outro, cada participante encontra-se pronto a servir liderando, promovendo e restaurando a dignidade humana. O serviço é o ponto de partida, mas também de chegada de um processo de construção individual que é circular, crescente e sempre incompleto. Torno-me pessoa.